sexta-feira, 5 de abril de 2013

25 anos da Constituição Federal e a proteção dos ecossistemas costeiros e marinhos



Data do evento: 11/04/2013

O ano de 2013 marca os 25 anos da Constituição Federal. Tendo em vista esse marco, e com o objetivo de avaliar de que forma a conservação marinha está amparada na legislação brasileira, será realizado em Brasília o Seminário “25 anos da Constituição Federal e a proteção dos ecossistemas costeiros e marinhos”, no dia 11 de abril (quinta-feira).

O evento será realizado na Câmara dos Deputados (na Praça dos Três Poderes), das 9h30 às 17h, e é coordenado pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara, com o apoio da Frente Parlamentar Ambientalista e da Fundação SOS Mata Atlântica.

Na ocasião, serão abordados os desafios e lacunas nas políticas públicas para a conservação marinha, com a proposição de uma agenda de trabalho entre os atores envolvidos. O objetivo é ampliar o debate sobre a construção de uma política nacional para a proteção dos oceanos, que incorpore os compromissos assumidos pelo governo brasileiro e demais países na Rio+20, nas variadas esferas governamentais e nos diversos níveis (municipal, estadual e federal), a fim de construir um ambiente favorável à aprovação da Lei Nacional dos Oceanos.

A Constituição Federal Brasileira define desde 1988, em seu artigo 225, que a Zona Costeira, região habitada por quase a metade de população do País, é um Patrimônio Nacional e afirma que sua utilização se dará na forma da lei, “dentro de condições que assegurem a preservação do Meio Ambiente e dos recursos naturais”. Os ecossistemas costeiros e marinhos são de fundamental importância para diversos processos naturais, sendo áreas de reprodução, alimentação e abrigo para várias espécies. Além disso, fornecem uma série de serviços ambientais que favorecem o bem-estar humano, como a proteção da linha de costa, o equilíbrio climático, o conforto térmico, a produção de pescados e o desenvolvimento de atividades de lazer e turismo. A fauna e a flora associadas aos ecossistemas costeiros também representam significativa fonte de alimentos e renda para as populações humanas.

Apesar da relevância ecológica e socioeconômica, os ambientes marinhos e costeiros estão entre os mais ameaçados do País e menos protegidos por acordos, normas e leis e por políticas públicas federais e estaduais.

Outras informações no e-mail: goncalvesleandra@gmail.com, com Leandra Gonçalves, bióloga e consultora da Fundação SOS Mata Atlântica.


Desenvolvimento econômico: mito ou realidade? artigo de José Eustáquio Diniz Alves



O eminente economista brasileiro Celso Furtado, no livro “O mito do desenvolvimento econômico”, considerava que os países da periferia do sistema capitalista seriam incapazes de reproduzir o padrão de consumo dos países ricos, pois o padrão de desenvolvimento afluente não seria generalizável para a maioria da população mundial:

(…) que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chegar efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (Furtado,1974, p. 19).

O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana. (…) a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema capitalista. (…) Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito (Furtado, 1974, p. 75).

Estas palavras foram publicadas em 1974, ano em que a população mundial atingiu 4 bilhões de pessoas e os países desenvolvidos tinham menos de um bilhão de habitantes. Para Celso Furtado, o desenvolvimento seria uma realidade para os países do Primeiro Mundo, mas um mito inalcançável para os países do Terceiro Mundo, pois com a pressão sobre os recursos naturais não haveria como satisfazer toda a demanda global.

Contudo, o desenvolvimento econômico – baseado na ampliação dos níveis de consumo conspícuo –continuou crescendo e se ampliando, mesmo depois da crise do petróleo da década de 1970. De 1974 a 2012 o PIB mundial cresceu 3,5 vezes (dados de Angus Maddison), enquanto a população mundial passou de 4 bilhões para 7,1 bilhões de habitantes, sendo que a “novidade dos anos 2000 foi o crescimento mais rápido dos países emergentes” (Alves, 2013). Nos países em desenvolvimento a esperança de vida ao nascer passou de 55 anos em 1970 para 66 anos em 2010 e a mortalidade infantil caiu de 105 mortes por mil nascimentos para 50 por mil, no mesmo período. Houve também avanços na educação e nas moradias.

Desta forma, o crescimento econômico mais acelerado dos países em desenvolvimento tem possibilitado o crescimento da chamada “nova classe média emergente”. Por exemplo, o estudo da firma de consultoria Mckinsey “Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets” (2012) mostra os avanços no aumento do mercado consumidor global, tendo sido publicado para mostrar para as empresas produtoras de bens industrializados e serviços como conquistar os novos consumidores das novas classes com poder de compra no mundo.

Utilizando o critério de renda de 10 dólares diários (em poder de paridade de compra – ppp), a McKinsey calcula que a “classe consumidora” era de 300 milhões de pessoas, em 1950, representando 12% da população mundial de 2,5 bilhões de habitantes. Em 1970 – pouco antes da publicação do livro de Celso Furtado, a “classe consumidora” era de 900 milhões de pessoas, representando 25% da população mundial de 3,7 bilhões de habitantes. Em 2010, a “classe consumidora” chegou a 2,4 bilhões de pessoas (quase o tamanho de toda a população mundial em 1950), representando 35% da população mundial de 6,8 bilhões de habitantes. Em 1974 havia pouco mais de 300 milhões de automóveis (carros, caminhões e ônibus) no mundo, passando para 1 bilhão em 2010 e devendo chegar a 1,5 bilhão de automóveis em 2025, cinco vezes mais veículos nas ruas e estradas em 50 anos.

Para 2025, a projeção da McKinsey é que a “classe consumidora” atinja 4,2 bilhões de pessoas, representando 53% da população mundial projetada para 7,9 bilhões de habitantes. Portanto, as estimativas apontam para uma “nova classe média mundial” superior a 50% da população global de 2025, número maior do que toda a população do Planeta em 1974, quando Celso Furtado escreveu o seu livro sobre o mito do desenvolvimento econômico.

Em termos de valores, o consumo mundial em 2010, calculado pela McKinsey, era de 38 trilhões de dólares, sendo 26 trilhões nos países desenvolvidos e 12 trilhões nos países emergentes. Mas para 2025, estima-se o consumo mundial de 64 trilhões de dólares sendo quase a metade (30 trilhões) para os países em desenvolvimento. Portanto, a “nova classe média emergente”, dos países antigamente definidos como Terceiro Mundo, terá um poder de consumo maior do que o montante atual da capacidade de compra dos consumidores dos países desenvolvidos. Os 30 trilhões de dólares das “classes consumidoras” dos países periféricos, previstos para 2025, será maior do que todo o PIB mundial em 1974.

As grandes empresas dos Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul estão de olho neste amplo mercado consumidor. Mesmo as empresas dos BRICS também estão lutando para conquistar fatias crescentes deste mercado. A China tem usado parte de suas reservas internacionais de 3,3 trilhões de dólares para apoiar a expansão de suas empresas. A Índia tem dado todo o apoio aos seus grandes conglomerados – como a Tata Motors.

Ou seja, a competição é grande para abocanhar pedaços desta multidão de consumidores, ávidos por comprar habitação, água potável, banheiro, saneamento e produtos de limpeza e higiene, luz elétrica, geladeira, TV, DVD, CD, TV-HD, fogão, máquina de lavar roupa, móveis, microondas, moto, bicicleta, carro, relógio, roupa, comida industrializada, telefone, celular, TV a cabo, internet, educação, saúde, lazer, viagens, etc.

Portanto, parece que Celso Furtado estava errado ao considerar o desenvolvimento econômico mundial e o acesso ao consumo conspícuo um fato inalcançável e um mito. O relatório do Índice de Desenvolvimento Humano 2013, do PNUD, mostra que foram os países do sul que mais tiveram ganhos no IDH. A parcela da população mundial que vive na situação de extrema pobreza caiu pela metade – de 43% em 1990 para 21% em 2010. O relatório também prevê que até o final da próxima década a maior parte das pessoas de classe média estarão vivendo em países antes considerados pobres.

A expansão do capitalismo chegou a níveis inimagináveis e a “classe consumidora” deverá ser maioria da população mundial até 2025 (não só a McKinsey, mas outras firmas de consultoria internacional, como a Goldman Sachs e a PwC, também fazem projeções semelhantes). A expansão do consumo mundial em países como China, Índia, Indonésia, Vietnam e Turquia já é uma realidade e só tende a crescer, pois une o desejo de lucro das empresas com a vontade de consumir das pessoas.

Todavia, parece que, infelizmente, Celso Furtado estava certo ao dizer: “se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso”. O progresso humano tem provocado o regresso ambiental. Assim, a realidade tem sido mais forte do que o mito, para a tristeza da Mãe Natureza que tem pagado um preço muito alto para sustentar a generalização do consumo entre setores crescentes da crescente população mundial.

Referências:

FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974

ALVES, J.E.D. Progresso humano e regresso ambiental. EcoDebate, Rio de Janeiro, 2012


ALVES, J.E.D. Países ricos perdem a maioria no PIB mundial em 2013, EcoDebate, Rio de Janeiro, 2013


ALVES, J.E.D. G7 versus E7: a vez dos países emergentes? EcoDebate, Rio de Janeiro, 2013


ALVES, J.E.D. A redução das desigualdades de renda entre as regiões do mundo. EcoDebate, RJ, 2013


McKINSEY. Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets, 2012.


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Originalmente publicado no site EcoDebate, 20/03/2013.


Comunidade tradicional sofre com a degradação ambiental


Autor: Fernanda B. Müller

Pescadores artesanais de Florianópolis são vítimas de projetos mal planejados e do descaso do poder público, em mais um exemplo da desvalorização da rica cultura dos povos tradicionais no Brasil


Em nosso país, onde tudo o que é internacional é extremamente valorizado, cada vez fica mais difícil de encontrar as raízes das culturas tradicionais que construíram a imagem da nação.

De norte a sul, indígenas e pequenas comunidades locais são massacrados pela ganância do agronegócio e pela inconsequência do crescimento desenfreado, sofrendo com a falta de planejamento e com o desrespeito aos seus simples modos de viver.

É o caso dos pescadores da comunidade de Ratones, na Ilha de Santa Catarina. Forçados a abandonar a pesca como única atividade, hoje eles não encontram mais peixes nem mesmo para o consumo próprio.

Assim como em muitos locais da Ilha, o Rio Ratones sofreu uma série de modificações ao longo dos últimos cinquenta anos. A retificação e a construção de duas pontes (foto) com comportas mudaram definitivamente a dinâmica do rio, que antes chegava a fornecer até 30 quilos por dia de camarão – hoje não passa de um, lamentam os pescadores.

Sem o fluxo que tinha antigamente, o leito do rio está assoreando, com bancos de areia e camadas de matéria orgânica tornando a sua navegação com embarcações de pequeno porte uma tarefa que demanda extrema atenção e força – pois muitos pontos exigem o uso apenas do remo.

A quantidade de matéria orgânica na água parada é um dos principais motivos para a queda na pesca do camarão, apontam os pescadores. A construção das comportas é outro elemento crítico.

“Antes das comportas muitas pessoas viviam da pesca e da roça, a alimentação era tirada do rio, hoje não tem mais”, lamentou Valmir Euclides, vice-presidente da Associação dos Pescadores do Rio Ratones.


Sem considerar a tradicional atividade de pesca na região, as comportas foram instaladas e barraram a passagem dos peixes maiores rio acima. Onde antes se pescavam cardumes de tainha, hoje apenas se encontram juvenis.

“Nós temos consciência de que não podemos pescar esses peixes pequenos, o pescador sabe que para se ter o adulto, precisa preservar os jovens”, coloca Euclides.

"Aqui era rico em robalo", comentou Orlando Domingos Silva, presidente da Associação de Pesca do Ratones.

Outro conflito na área é que na jusante do rio, a partir das comportas, onde se encontram os peixes adultos, foi criada a Estação Ecológica Carijós (ESEC). Sendo uma Unidade de Conservação de proteção integral, não se pode pescar na ESEC, e os pescadores têm plena consciência da sua importância.

Na área do rio em que é permitida a pesca, fora dos limites da ESEC, para a circulação da água o principal problema foi a retificação do canal, e para os peixes, o que impede a sua subida são as comportas,  explica Orlando.

Uma das comportas chegou a ter as suas portas removidas, porém a laje de concreto permanece barrando os peixes adultos. Antes da retirada destas portas, entre a década de 1960 e 1990, o manguezal definhava rio acima já que a água salgada era barrada no momento da subida da maré.

"Todo esse manguezal, quando fizeram as comportas, nós perdemos, eu conheci isso aqui um mar de lama por que toda a vegetação de água salobra morreu. Com a retirada das comportas, começou a circular água salobra de novo e voltou essa paisagem", comentou Orlando.


“Faz uns dez anos, se não tirasse a comporta não existia manguezal lá em cima hoje, nem peixe, porque era água doce pura, estaria mais assoreado ainda”, ressaltou Euclides.

A luta da Associação de Pesca do Ratones há quase vinte anos é que o rio seja revitalizado, com a remoção das comportas e a retomada do seu curso natural. Na sexta-feira (20), a associação realizará um evento, chamando diferentes esferas do poder público para tomar conhecimento da situação e agir.

Apesar de todos os problemas, a riqueza da região salta aos olhos de quem está acostumado a andar nas praias de Florianópolis, em sua maioria intensamente impactadas pela especulação imobiliária.

O manguezal do Ratones, incluído em parte na ESEC, tem um porte e uma riqueza surpreendentes. Garça-moura, águia-pescadora, martim-pescador, gavião-pega-macaco, lontra, jacaré-de-papo-amarelo, caranguejos e ostras são apenas alguns exemplos dos tesouros desse local.

No caso do Ratones, assim como em milhares de outros ao redor do país, a dura empreitada dos pescadores enfrenta o descaso do poder público, que ignora o suplício dos povos tradicionais.

Além de contribuírem para a preservação dos ecossistemas e da cultura local – especialmente quando têm apoio do poder público –, essas populações mostram que se respeitados os seus direitos e os recursos dos quais dependem, é possível viver de forma simples.

Dependendo dos recursos que o ambiente lhes oferece, essas populações, que têm uma visão ímpar e coletiva da vida – longe do individualismo e materialismo despropositado de grande parte da população –, são forçadas a se deslocar para as cidades.

A busca por alternativas os distancia completamente do modo autossustentável de sobrevivência que esses povos costumavam ter. Uma perda tanto para eles quanto para a sociedade, que apaga cada vez mais a sua história e esquece sua cultura e seus valores.

O local paradisíaco que muitos brasileiros sonham em conhecer e habitar há muito perdeu o jeito simples de conviver com a riqueza natural que o cerca.

Fotos: Fabrício Basílio

Publicado originalmente no site Instituto CarbonoBrasil, 20/03/2013.


NOTA PÚBLICA – Em defesa da luta das comunidades e povos indígenas em face da imposição de projetos de desenvolvimento na Amazônia


Terra de Direitos, Comissão Pastoral da Terra – CPT (BR 163 e Santarém) e o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB protocolam nesta segunda-feira, 1º de abril, documento no Ministério Público Federal denunciando a situação de tensão e conflito iminente nas comunidades afetadas pelo projeto da Usina Hidrelétrica São Luis do Tapajós, e solicitando a suspensão imediata de todos os estudos e trabalhos realizados no interior das comunidades e aldeias indígenas.


O povo amazônida, indígena, quilombola, caboclo, ribeirinho, trabalhador rural, das cidades, rico por e pela natureza, vem progressivamente sendo ameaçado, violentado, expulso e alienado pelo modelo de desenvolvimento implementado pelos grandes empresários, corporações multinacionais e pelo Estado Brasileiro na região. Considerados prioritários para governo, mas ainda não discutidos com qualquer cidadão ou comunidade afetada, a previsão de sete projetos hidrelétricos no Tapajós e a imposição dos procedimentos para sua a construção não difere dos métodos utilizados no restante na Amazônia, tão pouco dos tempos de ditadura militar e do Brasil-Colônia: implementação forçada e autoritária de grandes projetos, criminalização de movimentos sociais, invisibilização e expulsão das populações tradicionais e indígenas dos seus territórios, aumento do desmatamento, violação de direitos humanos, geração de migração artificial, inchaço das periferias urbanas, aumento da criminalidade e violência contra as mulheres e crianças, precarização dos serviços básicos de saúde e assistência públicas, aumento da desigualdade social, econômica e ambiental, privatização dos bens comuns, entre outros.

Nesse sentido, o Estado Brasileiro, na região Oeste do Pará, vem demonstrando total desrespeito com a Constituição Federal, com os direitos indígenas e dos povos tradicionais, com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e com a decisão da Justiça Federal em Santarém. Na ultima quarta-feira, dia 27, o Governo Federal enviou 250 integrantes da Força Nacional de Segurança Pública, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Aérea Brasileira à cidade de Itaituba/PA para garantir a execução da ultima etapa de levantamento de informações ambientais na região do médio e alto Tapajós, que irá compor o Estudo de Impacto Ambiental para a obtenção das licenças ambientais do complexo hidrelétrico.

Ao contrário do que alega o governo brasileiro, o licenciamento ambiental do Complexo Tapajós segue violando os direitos humanos ao território, ao meio ambiente, à dignidade humana, à defesa da cultura e à garantia social. A presença hostil de forças policiais inibe qualquer manifestação ou ato indígena em defesa do seu próprio território. Sem qualquer informação oficial, o processo segue sem a realização da Consulta Prévia, Livre e Informada das comunidades afetadas, o que é exigida pela Convenção 169 da OIT, da qual o Estado brasileiro é signatário e que goza de status materialmente constitucional, em razão dos direitos que assegura.

Dessa forma, a operação ainda é uma patente violação à decisão da Justiça Federal em Santarém, que suspendeu o licenciamento ambiental por justamente não haver ocorrido as consultas prévias aos povos indígenas. Neste sentido, as entidades signatárias desta nota protocolaram na data de hoje, junto ao Ministério Público Federal, documento denunciando as situações de tensão e conflito decorrentes da continuidade dos estudos e trabalhos realizados pelas empresas nas comunidades afetadas pela UHE São Luis do Tapajós, reivindicando que seja requerido na justiça a imediata suspensão de todos os estudos e trabalhos, até que a devida consulta prévia seja efetivamente realizada.

DENUNCIAMOS A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS promovida pelo ESTADO BRASILEIRO na região do Tapajós, REPUDIAMOS a REPRESSÃO ARMADA para a realização do LICENCIAMENTO AMBIENTAL sem a devida realização da CONSULTA LIVRE, PRÉVIA E INFORMADA e EXIGIMOS o IMEDIATO CUMPRIMENTO DA DECISÃO JUDICIAL E DOS DIREITOS GARANTIDOS PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS.

Por isso, vimos a público declarar nossa solidariedade ao povo Munduruku, à comunidade de Pimental (Trairão/PA) e à luta pelo nosso rio Tapajós, pelo nosso território, pela nossa cultura e identidade, por justiça!

Na oportunidade, divulgamos a “Carta de Itaituba”, resultado do encontro que reuniu os Povos do Tapajós, realizado no dia 23 de março e assinado pelos movimentos, comunidades e organizações presentes.

A carta, elaborada às vésperas desta operação autoritária sem qualquer conhecimento sobre a sua existência ou realização, acaba por anunciar a situação de tensão permanente e risco iminente da explosão de conflitos decorrentes do conjunto de violações concretizadas na grilagem terras, na exploração ilegal de madeira, na expansão dos monocultivos exógenos à região, e na imposição dos trabalhos de empresas e forças de segurança responsáveis pela implementação autoritária dos projetos de infra-estrutura sem o devido debate e consulta às comunidades.

CARTA DE ITAITUBA
Centro de Formação Laranjal, Itaituba, 23 de março de 2013


Nós, movimentos sociais e populares, entidades, federações, associações, organizações e lideranças abaixo assinados, presentes no encontro que reuniu os Povos do Tapajós, realizado no dia 23 de março de 2013, na cidade de Itaituba, Estado do Pará, debatemos e deliberamos pela construção e realização de um processo de luta unificada em defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, dos direitos territoriais, da floresta e dos povos amazônicos.

O modelo de desenvolvimento implementado na Amazônia, de grandes obras de infraestrutura, como o Complexo Hidrelétrico Tapajós e grandes projetos como a expansão dos monocultivos, não trazem o prometido “desenvolvimento” para a região. Entendemos que esses projetos, na verdade, servem para atender os interesses de grandes empresas nacionais e internacionais, são implantados sem o consentimento do povo da Amazônia e acabam por destruir as formas locais de vida, pois geram grandes danos ambientais e se apropriam de terras que são reivindicadas por indígenas e povos e comunidades tradicionais.

Assim, o nosso entendimento comum é que esse modelo de desenvolvimento intensifica a ofensiva do capitalismo sobre os territórios e os recursos naturais da Amazônia; as violações de direitos humanos e a criminalização dos movimentos sociais tudo com a conivência do Estado brasileiro.

Dessa forma, contrário do que alega o governo, nesse modelo não há participação democrática das populações locais. O licenciamento ambiental do Complexo Tapajós, por exemplo, segue violando os direitos de participação e informação das comunidades e populações urbanas afetadas. O processo segue sem a realização da Consulta Prévia, Livre e Informada das comunidades afetadas, o que é exigida pela Convenção 169 da OIT, a qual o Estado brasileiro é signatário e que goza de status materialmente constitucional, em razão dos direitos que assegura.

Diante da falta de consulta prévia às comunidades afetadas e de Avaliação Ambiental Integrada (AAI) o Ministério Público Federal em Santarém pediu a suspensão dos estudos da UHE de São Luiz do Tapajós (processo n. 3883-98.2012.4.01.3902). A Justiça Federal de Santarém em 19 de novembro de 2012, proferiu decisão judicial em que proíbe a concessão de licença ambiental prévia para a construção da usina. No entanto, decisão judicial tem sido ineficaz na medida que as empresas continuam a entrar nos territórios das comunidades para realizar estudos e levantamentos, sem um amplo debate democrático sobre a implementação do complexo tapajós e sem o cumprimento do direito de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas e populações tradicionais.

Nesse sentido, de modo a prevenir o agravamento dos conflitos na região, exigimos a tomada de providências pela Justiça Federal e Ministério Público Federal, a fim de que seja determinada a imediata suspensão dos trabalhos e dos estudos para a construção da UHE de São Luiz do Tapajós, até que seja realizada de maneira efetiva, e com garantia dos direitos, da opinião e da vontade das comunidades afetadas, a consulta livre, prévia e informada sobre os rumos do desenvolvimento na nossa região.

Entidades, movimentos e povos que assinam a presente carta:
Associação de Mulheres do Município de Aveiro/PA
Associação Indígena Açaizal Sagrada Família – Santarém/PA
Associação indígena PUSSURU – AIP – Jacareacanga/PA
Associação indígena Pahyhyp – Itaituba/PA
Associação de Moradores a Agricultores da Comunidade São Francisco
CPT – Comissão Pastoral da Terra BR 163 e Santarém
Comissão Justiça e Paz – Município de Placas/PA
CITA – Conselho Indígena Tapajós Arapiuns
FOQS – Federação das Organizações Quilombolas de Santarém
FDA – Frente em Defesa da Amazônia
GUATAMURU – Associação dos Extrativistas da Resex Renascer – Prainha/PA
MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais – Aveiro/PA
Pastoral Social do Município do Município de Trairão/PA
Pastoral Social da Diocese do Município de Óbidos/PA
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Município de Itaituta/PA
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Município de Aveiro/PA
SDDH – Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
Terra de Direitos – Organização em Direitos Humanos

Originalmente postado no site Terra de Direitos – Organizaçãode Direitos Humanos, 01/04/2013.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

McDonald’s novamente envolvido em escândalo de crueldade com animais na América Latina



Não ignore os assassinatos que acontecem exatamente embaixo do seu nariz

No começo do ano, a rede norte-americana McDonald’s lançou uma campanha audaciosa que pretendia mostrar de onde vem a carne dos hambúrgueres que eles vendem (relembre aqui). O alvo da campanha foi a América Latina. Nos filmes publicitários, atores apresentavam toda a cadeia produtiva da carne com imagens bucólicas e conteúdo leve e agradável – exatamente o oposto à realidade. O marketing do McDonald’s coletou depoimentos falsos de produtores e fez um belo trabalho de enganar o público.

A ONG “Elige Veganismo” (Escolha Veganismo), do Chile, resolveu ir atrás dos produtores que a campanha chilena do McDonald’s mostrava na TV. Como era de se esperar, os ativistas encontraram um cenário completamente diferente do sugerido nas propagandas.

Animais doentes, sujos, humilhados, espancados e sofrendo todo tipo de abuso são, na realidade, o principal ingrediente dos hambúrgueres do McDonald’s. Com câmeras escondidas, os investigadores conseguiram entrevistas impressionantes sobre os processos das fazendas que fornecem carne à rede de lanchonetes.

Intitulada de “Más allá de la hamburguesa” (Além do hambúrguer), a investigação da ONG faz uma referência à campanha do McDonald’s que, no Brasil, saiu com o nome de “Além da cozinha”.

A publicidade da campanha no Chile cita duas fazendas produtoras como parceiras no fornecimento de carne: “Rinconada” e “San Ricardo”. Com câmeras escondidas, os ativistas entrevistaram funcionários das duas fazendas que garantiram que não fornecem para o McDonald’s e que apenas permitiram que a rede gravasse a campanha em suas terras. A filha do dono de uma das fazendas, inclusive, disse que a carne de hambúrgueres vem de vacas doentes, compradas a preço baixo em leilões do setor e também de bezerros que não estão se desenvolvendo como o esperado ou que são descartados da indústria do leite.

No site da denúncia (www.masalladelahamburguesa.com), os ativistas alegam que não esperavam que o McDonald’s mentisse até nisso. Intrigados, chegaram ao único matadouro autorizado a fornecer carne à rede dentro do Chile, o matadouro Mafrisur.

Após dias de espionagem, a ONG Elige Veganismo coletou material suficiente para fazer um pequeno documentário, que você assiste abaixo. Os ativistas registraram a chegada das vacas doentes, vindas de fazendas leiteiras, e de bezerros assustados. Tratados como lixo dentro do Mafrisur, os animais apanham na cara o tempo todo, são chutados, espetados e humilhados de todos os jeitos para que andem em direção à sua morte.

Assista ao vídeo | Youtube

Como não colaborar mais com isso

Quando você compra carne, laticínios (queijo, iogurtes, leite e outros derivados), ovos e qualquer outro produto de origem animal, está colocando seu dinheiro em uma indústria suja que vê os animais como números e os explora até a última gota de sangue. Acesse o site www.sejavegano.com.br e veja os primeiros passos para adotar um estilo de vida livre de crueldade. No link, receitas, dicas e muita informação.

O ViSta-se parabeniza o bom trabalho e coragem dos ativistas da ONG Elige Veganismo.

ONG Elige Veganismo: Facebook



Originalmente postado no site ViSta-se, 02/04/2013.